Nas últimas semanas, o Olhar Digital noticiou um tratamento experimental promissor contra o câncer de pele. A abordagem é liderada pela Dra. Carmen Silvia Passos Lima, médica oncologista e professora, e por pesquisadores da Unicamp.
Trata-se de um composto inovador que combina um complexo de prata com um anti-inflamatório, a nimesulida, aplicado com adesivo e uma membrana de celulose bacteriana diretamente na lesão.
Para saber mais sobre a novidade, em que fase se encontra atualmente e como ela funciona, o OD entrevistou Carmen Lima e uma das pesquisadoras do estudo, a Dra. Gisele Goulart da Silva, pesquisadora de pós-doutorado da Unicamp.
Leia, a seguir, a entrevista completa:
Olhar Digital: O que diferencia esse novo tratamento das abordagens tradicionais já utilizadas contra o câncer de pele?
Dra. Carmen: Normalmente, esse tipo de câncer de pele, o carcinoma de células escamosas, é tratado com cirurgia, com ressecção cirúrgica do tumor. O problema é que esse tumor aparece mais comumente em áreas expostas ao sol.
Pode ser identificado nos membros superiores, braços, mãos e, principalmente, no rosto. E a ressecção cirúrgica pode deixar como sequela anormalidades visíveis, tanto estéticas quanto anormalidades funcionais, dependendo da localização do tumor.
Por exemplo, se esse tumor estiver localizado no lábio, é possível que seja necessário remover parte do lábio, com alterações na fala do paciente. Não se trata apenas de anormalidades estéticas, alterações estéticas, mas sim também de alterações funcionais.
A administração tópica de quimioterápicos, como o 5-fluorouracil, é também indicada para portadores desse tipo de tumor, mas sua eficácia é ainda duvidosa, particularmente em tumores profundos.
Tratamento de portadores do tumor com imunoterápico, como o cemiplimabe, também deve ser considerado, mas o custo do agente é tal que impede sua prescrição no Sistema Único de Saúde (SUS) do nosso país.
Em nosso estudo, o complexo prata-nimesulida é aplicado a uma membrana, que libera constantemente o quimioterápico sobre o tumor. Trata-se de um adesivo, como um curativo, que é colocado sobre o tumor e que deve ser trocado de tempos em tempos.
Esse é um tratamento diferente dos tratamentos tópicos que existem no momento, que são administrados na forma de um creme ou de uma pomada, que pode ser removida com os movimentos exercidos ao longo do dia ou pode atingir a pele sadia, não protegida, em torno do tumor.

OD: Como funciona o mecanismo de ação da terapia e quais são os principais avanços científicos por trás dela?
Dra. Gisele: A gente ainda não tem claro o mecanismo de ação desse medicamento. Mas observamos em estudo prévio conduzido em animais que [o medicamento] reduz a inflamação, que é um processo fundamental na formação do tumor. Entretanto, a prata-nimesulida pode alterar outros processos envolvidos com o desenvolvimento e progressão do tumor, e isso será avaliado durante o desenvolvimento da pesquisa.
Dra. Carmen: Vários experimentos foram conduzidos anteriormente para que o complexo pudesse ser avaliado em humanos.
Observamos inicialmente, em experimentos in vitro, no laboratório, que o complexo inibiu a proliferação de células tumorais e destruiu as demais, o que indicou que poderia ser um bom tratamento para pacientes portadores desse tipo de tumor.
A seguir, foram conduzidos experimentos em animais de pequeno porte, os camundongos. Nesses experimentos, camundongos com o tumor foram tratados com a aplicação do adesivo contendo a membrana impregnada pelo complexo prata-nimesulida sobre os tumores da pele. Observamos redução parcial ou total dos tumores com o tratamento.
E, ainda, o tratamento não determinou toxicidade local, onde foi aplicado o adesivo, ou sistêmica, como hematológica, renal e hepática.
Em função desses resultados, concluímos que o tratamento tópico foi eficaz contra o carcinoma de células escamosas de pele e seguro quando administrado sobre a pele de animais. Com base nesses achados, nós obtivemos liberação do Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp para que fosse avaliado em humanos.
OD: Em que estágio da pesquisa o estudo se encontra atualmente e quais foram os resultados obtidos até agora?
Dra. Carmen: Agora, estamos conduzindo o estudo clínico em humanos, que é dividido em duas partes: fase 1 e fase 2.
Dra. Gisele: O estudo de fase 1 envolve pequeno número de pacientes com o tumor — seis pessoas — e visa verificar qual dose do complexo prata-nimesulida deverá ser administrada a humanos na fase 2.
Administramos doses crescentes do complexo em membrana de celulose e adesivo aos pacientes e observamos se ocorreu alguma toxicidade, tanto cutânea, como irritação na pele, quanto sistêmica, porque fazemos exames de sangue, avaliando função renal, função hepática e hemograma.
Ao término desta fase, que está em andamento, teremos definido a dose ideal a ser ministrada aos portadores do tumor na fase 2 do estudo. Durante a segunda fase do estudo, 20 pacientes serão tratados com a dose definida no estudo da fase anterior, visando verificar a eficácia do tratamento.
Se uma redução ou desaparecimento dos tumores for observado, poderemos prosseguir para a sua chegada ao mercado e aos pacientes, solicitando aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
OD: Quais são as expectativas em relação à eficácia do tratamento em comparação com terapias já disponíveis?
Dra. Carmen: A nossa expectativa é a melhor possível. Que obtenhamos as mesmas respostas em humanos que nós obtivemos nos animais. Mas quem vai responder serão os resultados do próprio estudo. Essa é a expectativa. Esperamos que aconteça.

OD: Quanto tempo deve levar até que o tratamento possa ser disponibilizado ao público, caso os resultados sejam positivos?
Dra. Gisele: A expectativa é que seja disponibilizado o mais rápido possível. Mas é muito difícil a gente estimar, porque é um processo muito burocrático. Uma vez que passa pelo estudo de fase 1, fase 2, tem toda a parte de registro pela Anvisa. São muitos processos, são muitas etapas. A gente espera que seja rápido. Mas estimar um tempo específico é difícil.
OD: Existe a possibilidade de aplicação dessa tecnologia para outros tipos de câncer?
Dra. Carmen: Nós não temos resultados para isso. Nós só testemunhamos o complexo prata-nimesulida nesse tipo de tumor. É possível que, em outros tipos de tumor de pele, a gente também possa usar esse medicamento. Nós não temos nenhum embasamento teórico, nenhum embasamento experimental para dizer isso.
Nós vamos precisar repetir todos os experimentos das fases anteriores com outro tipo de tumor, como, por exemplo, o carcinoma basocelular, que é um tumor de pele muito comum, ou melanoma, que é um tumor raro, mas é bastante agressivo.
É por isso que os avanços em medicina são avanços lentos. Na verdade, até a gente levar algum medicamento para o humano, é necessário um longo caminho, muito trabalho e muita persistência dos pesquisadores.
OD: Deixo um espaço agora para um último recado aos nossos leitores, já agradecendo pela entrevista.
Dra. Carmen: Eu gostaria de ressaltar o longo caminho que é necessário para o desenvolvimento de um novo fármaco para tratamento de câncer. Quantos pesquisadores foram necessários, quanto trabalho foi realizado e quanto esforço foi despendido para que se pudesse obter o resultado desse estudo.
Gostaria também de ressaltar que nós conduzimos tudo isso com financiamento de agências de pesquisa, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), destinadas a este projeto específico e ao CEPID CancerThera.
Dra. Gisele: É muito bacana essa oportunidade que a gente está tendo de poder explicar a pesquisa e poder levar isso para a população. E é muito importante esse ponto que a doutora Carmen ressaltou, em relação ao suporte financeiro, de também falar e dizer sobre os recursos que são usados aqui e como que eles chegam até a gente.
O post Tratamento promissor para o câncer de pele está em testes no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.
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